Eram três os cachorros, e não paravam de latir. Do outro lado da porta era possível ouvir os focinhos farejando a fresta e as unhas riscando o assoalho de madeira. Ficaram alarmados com o ruído da campainha, pensou, e torcia para que aquela barulheira viesse de outro apartamento. Pelas portas, uma do lado da outra, não era possível saber, e ter sua perna agarrada era tudo o que ele não queria naquele primeiro encontro.
Ou seria o segundo? Porque haviam se conhecido no dia anterior em um dos poucos bares da cidade, um bar que já havia conhecido dias melhores. O acerto foi rápido: estava com o amigo, elas também eram duas, após algumas palavras e beijos foram para outro lugar. Ficaram no sofá da sala, enquanto o outro casal se trancou no quarto e não foi mais visto. Usou todos os seus truques, desperdiçou todos os seus argumentos, mas ela seguiu fria e indiferente. Em determinada altura da noite, ela se viu sem blusa ou sutiã, e ele se viu apalpando seus seios. Você vê? É um maior que o outro, ela comentou, e ele gostou daquela intimidade, daquele desprendimento de estar fazendo aquilo, examinar seus seios!, após conhecê-la há apenas algumas horas.
Passe amanhã lá em casa. Hoje não vai rolar nada.
Passou, sem entender muito bem o porquê. Se as intenções já haviam ficado claramente estabelecidas, porque não na primeira noite? Ah, as mulheres. Uma vez a ex havia explicado: elas não se sentiam à vontade quando não estavam depiladas, talvez fosse isso. Queria ir pra casa antes, se preparar. Que seja.
Ela gritou lá de dentro que já ia, o que ele achou meio vulgar. Abriu a porta, usava roupa de ficar em casa, menos pior que não viu nenhum cachorro. Preciso tomar banho ainda, você espera aqui? Talvez quisesse um copo de água, mas ele recusou. Ficou sentado no sofá, que era meio gasto. Todo o apartamento era gasto. O piso estava descolado, os móveis eram de mau gosto e sem personalidade, a parede era pintada de rosa. Como um bordel.
Percebeu que ela deixara a porta do banheiro aberta. Esperava que ele entrasse e começassem tudo ali mesmo? Sentiu medo de parecer um pervertido. Lembrou de uma vez em que a ex avisara sobre o banho e ele entrou. Foi gostoso naquele dia. Na dúvida, melhor esperar. Se não agora, seria dali a pouco.
Ela voltou, de cabelos molhados e camisola. Trocaram amenidades, a falta de assunto era evidente para ele, talvez para ela não fosse tanto. Não tinha como saber. Começaram a assistir à televisão. Um pouco acima do aparelho, notou um porta-retratos com uma foto dela feita por um profissional. Levava uma boina e uma expressão que o fizeram lembrar uma estrela da música pop dos anos 80. Pessoas se prendem a esse tipo de coisa, gostam de ser comparadas a famosos, isso preenche suas vidas. Talvez o fato do retrato estar ali, tão à vista, fosse intencional. Queria que comentassem: como você se parece com aquela estrela da música pop dos anos 80. Ou então esperava preencher lacunas da sua personalidade com o estilo de vida da estrela, em um processo de transferência, como aquelas pessoas que compram caminhonetes quatro por quatro para ir ao shopping.
Não queria fazer sexo com uma estrela da música pop dos anos 80, então não disse nada.
Começaram a se beijar. Tiraram a roupa, até aí nenhuma novidade. Lá estavam eles, o esquerdo maior que o direito. Ela começa a rir, desculpe, é que eu acho esse apresentador muito engraçado. Bege, acho que devemos pintar o teto de bege.
Ela sugeriu irem para o quarto. Fizeram tudo ali mesmo, em cima da cama, sem muita criatividade ou variação. Não saberia dizer se ela gozou, o que o deixou desconfortável pela primeira vez na vida, porque ali não havia o acordo tácito que tinha com a ex: eu te dou orgasmos, você me dá carinho. Acendeu um cigarro – fazia pouco tempo que fumava – e ficou olhando pela janela. Depois voltou e ficou deitado, ela sobre o seu peito, acariciando seus cabelos. Gostava disso.
Promete que vai ser sempre assim carinhoso comigo?
Se houvesse um “sempre”, prometeria, mas como não era o caso apenas sorriu. O desespero das pessoas em criar vínculos. Enquanto esperava ela adormecer, aproveitou para pensar muito na vida. Precisava sair o quanto antes dali.
Se mexeu com cuidado, vestiu a roupa. Seria como no cinema, a pessoa acorda e não encontra ninguém a seu lado, e depois segue tocando a vida assim mesmo. Na ponta dos pés, foi até a sala, procurando pelas chaves da casa. Saiu do apartamento, era preciso tomar cuidado com os cachorros, mas dessa vez eles se calaram. Lá embaixo tentou todas as chaves, mas nenhuma delas serviu. Teria que voltar e falar com ela.
Quando entrou ela estava sentada na cama, mas não disse nada. Acho que vou embora. Tudo bem, e apanhou uma chave separada na gaveta do criado mudo. A precaução. Desceram a escada em silêncio. Um leve beijo na boca no saguão de entrada. Se eu não olhar para trás, talvez ela se desmanche como uma estátua de sal. Mas ela gritou lá da porta.
Você me liga amanhã?
Ligou, mas não para ela.
Ou seria o segundo? Porque haviam se conhecido no dia anterior em um dos poucos bares da cidade, um bar que já havia conhecido dias melhores. O acerto foi rápido: estava com o amigo, elas também eram duas, após algumas palavras e beijos foram para outro lugar. Ficaram no sofá da sala, enquanto o outro casal se trancou no quarto e não foi mais visto. Usou todos os seus truques, desperdiçou todos os seus argumentos, mas ela seguiu fria e indiferente. Em determinada altura da noite, ela se viu sem blusa ou sutiã, e ele se viu apalpando seus seios. Você vê? É um maior que o outro, ela comentou, e ele gostou daquela intimidade, daquele desprendimento de estar fazendo aquilo, examinar seus seios!, após conhecê-la há apenas algumas horas.
Passe amanhã lá em casa. Hoje não vai rolar nada.
Passou, sem entender muito bem o porquê. Se as intenções já haviam ficado claramente estabelecidas, porque não na primeira noite? Ah, as mulheres. Uma vez a ex havia explicado: elas não se sentiam à vontade quando não estavam depiladas, talvez fosse isso. Queria ir pra casa antes, se preparar. Que seja.
Ela gritou lá de dentro que já ia, o que ele achou meio vulgar. Abriu a porta, usava roupa de ficar em casa, menos pior que não viu nenhum cachorro. Preciso tomar banho ainda, você espera aqui? Talvez quisesse um copo de água, mas ele recusou. Ficou sentado no sofá, que era meio gasto. Todo o apartamento era gasto. O piso estava descolado, os móveis eram de mau gosto e sem personalidade, a parede era pintada de rosa. Como um bordel.
Percebeu que ela deixara a porta do banheiro aberta. Esperava que ele entrasse e começassem tudo ali mesmo? Sentiu medo de parecer um pervertido. Lembrou de uma vez em que a ex avisara sobre o banho e ele entrou. Foi gostoso naquele dia. Na dúvida, melhor esperar. Se não agora, seria dali a pouco.
Ela voltou, de cabelos molhados e camisola. Trocaram amenidades, a falta de assunto era evidente para ele, talvez para ela não fosse tanto. Não tinha como saber. Começaram a assistir à televisão. Um pouco acima do aparelho, notou um porta-retratos com uma foto dela feita por um profissional. Levava uma boina e uma expressão que o fizeram lembrar uma estrela da música pop dos anos 80. Pessoas se prendem a esse tipo de coisa, gostam de ser comparadas a famosos, isso preenche suas vidas. Talvez o fato do retrato estar ali, tão à vista, fosse intencional. Queria que comentassem: como você se parece com aquela estrela da música pop dos anos 80. Ou então esperava preencher lacunas da sua personalidade com o estilo de vida da estrela, em um processo de transferência, como aquelas pessoas que compram caminhonetes quatro por quatro para ir ao shopping.
Não queria fazer sexo com uma estrela da música pop dos anos 80, então não disse nada.
Começaram a se beijar. Tiraram a roupa, até aí nenhuma novidade. Lá estavam eles, o esquerdo maior que o direito. Ela começa a rir, desculpe, é que eu acho esse apresentador muito engraçado. Bege, acho que devemos pintar o teto de bege.
Ela sugeriu irem para o quarto. Fizeram tudo ali mesmo, em cima da cama, sem muita criatividade ou variação. Não saberia dizer se ela gozou, o que o deixou desconfortável pela primeira vez na vida, porque ali não havia o acordo tácito que tinha com a ex: eu te dou orgasmos, você me dá carinho. Acendeu um cigarro – fazia pouco tempo que fumava – e ficou olhando pela janela. Depois voltou e ficou deitado, ela sobre o seu peito, acariciando seus cabelos. Gostava disso.
Promete que vai ser sempre assim carinhoso comigo?
Se houvesse um “sempre”, prometeria, mas como não era o caso apenas sorriu. O desespero das pessoas em criar vínculos. Enquanto esperava ela adormecer, aproveitou para pensar muito na vida. Precisava sair o quanto antes dali.
Se mexeu com cuidado, vestiu a roupa. Seria como no cinema, a pessoa acorda e não encontra ninguém a seu lado, e depois segue tocando a vida assim mesmo. Na ponta dos pés, foi até a sala, procurando pelas chaves da casa. Saiu do apartamento, era preciso tomar cuidado com os cachorros, mas dessa vez eles se calaram. Lá embaixo tentou todas as chaves, mas nenhuma delas serviu. Teria que voltar e falar com ela.
Quando entrou ela estava sentada na cama, mas não disse nada. Acho que vou embora. Tudo bem, e apanhou uma chave separada na gaveta do criado mudo. A precaução. Desceram a escada em silêncio. Um leve beijo na boca no saguão de entrada. Se eu não olhar para trás, talvez ela se desmanche como uma estátua de sal. Mas ela gritou lá da porta.
Você me liga amanhã?
Ligou, mas não para ela.